sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

ILUSÕES

Ela adentrou em minha loja com lágrimas nos olhos. Ansiava por atenção. Parecia querer descontar sua frustração nas compras. Nossa conversa não ultrapassa a mera formalidade de um vendedor e uma cliente. Muito atraente, até me intimidaria não fosse sua carinha de cachorro abandonado numa noite chuvosa sem saber para onde ir. Essa menina inventa de aparecer, completamente desnorteada, justamente no meu dia de comparecer na loja para verificar seu funcionamento, e ainda faltando quinze minutos para encerramos nossas atividades. Ela para de revirar os vestidos e me pede uma bebida forte. Não servimos alcoólicos aqui, só temos água, café descafeinado e chá, nada que a ajude em sua árdua tarefa de tentar obliterar seus problemas. Resolvo então fechar a loja e acompanhá-la até o bar do outro lado da rua. O melhor dry martini da cidade sempre foi minha melhor companhia em noites hostis como a dela. Escolho uma mesinha numa lateral mais reservada e não preciso falar muito, ela já começa seu desabafo. Dou-me conta de que ainda não sabemos nossos nomes. Marina, ela diz. Eu digo meu nome e adiciono a informação que as pessoas, quando simpatizam comigo, me chamam de Léo apenas. A noite transcorre como jazz. Demonstro interesse nela e em sua triste história. Quando vejo estamos no portão de sua casa, nos despedindo com dois beijinhos no rosto como bons amigos. Faço o percurso de volta com toda história na cabeça. Deito e acabo sonhando com um pedaço da conversa da noite, o trecho de um e-mail em que o rapaz de quem ela tanto gosta desabafa: É muito fácil amar com um Corolla na garagem, seis zeros na conta e toda liberdade e disponibilidade para viajar para onde bem entender. Mulheres da sua idade ainda preferem os caras mais velhos, enquanto as com a idade da minha mãe estão com seus garotões. Difícil é saber se com experiência elas também adquirem inteligência ou se os dois são inversamente proporcionais. Desilusões e mais ilusões. No fim você descobre que a verdade sempre esteve dentro do seu coração, mas você quis se iludir. Se enganar. Refutar. Rechaçar qualquer sentimento que cultivou. Mente pra mim, mente pra você, mente para quem quiser acreditar. Ilusão. Sabe que nunca conseguirá enganar seu coração. Você nega mas seu corpo afirma, seus poros exalam desejo, te denunciam. Você não consegue disfarçar. Finge que é feliz. Vai, finge, tenta me ferir, tenta se enganar. Mas avisa aos seus amigos para não revelarem suas verdades inconfessáveis. Seu coração grita, pede por ajuda cada vez que me vê passar. A vontade de jogar pro ar seu amor glacial e seguir suas vontades e instintos ardentes. Você sabe que o que mais anseia é jogar seu velhote de lado e viver nosso amor adolescente. Confessa que não sabe me esquecer. Olho para o seu rosto e não vejo satisfação, muito menos felicidade. Para de fugir da verdade, tem medo de ser feliz? Até quando vai lutar contra tudo o que sente? Até quando vai se enganar? Quando estiver disposta a ser feliz de verdade, me liga. Acordo pensando em Marina. Depois desse e-mail ela resolveu provar ainda mais o quanto ele estava errado, se afundou em seu relacionamento, literalmente. Não teve mais como evitar o fim quando pelo trigésimo dia consecutivo acordou de um sonho com seu menino. O sorriso estampado em seu rosto deu lugar a uma expressão de falsa alegria, forçada ao virar para o lado e encontrar seu namorado trazendo café na cama e um buque de flores. Já não dava mais para sustentar, havia ficado insuportável para ambos. E após uma discussão definitiva ela entrou em minha loja, perdida, tentando se encontrar entre um vestido e outro. Não sei se ela volta, mas espero que siga seu coração.